sábado, 12 de outubro de 2013

A MURTA, A MIRTA DECUSSADA! - wikdicionario wikcionario



Um dia irei ter às terras
para onde minha mãe foi
na sua derradeira caminhada
em busca de Orfeu e Eurídice.
Vou parar definitivamente nas terras
aonde mãe está a encetar nova jornada
pelos subterrâneos do Hades.
Terras?! - Não são terras;
céus?! - Não são céus;
aguas?! - não são águas;
ares?! - Não são ares,
mares, gares... - Não são gares!...
- no muito são esgares
escondidos na máscara mortuária
ou algum naipe :
o Ás do baralho
oculto na manga da mortalha
pelo trapaceiro contumaz
para o caso de haver um jogo de azar
que o Livro dos Mortos não preconiza.

Mãe não foi a lugar nenhum,
nem ficou por aqui,
apenas perdeu um corpo
para a morte,
mas continua a habitar outros corpos
em oito filhos
( uma oitava acima do registro do violino
à mão do violinista azul celeste de Chagall)
e outros tantos netos, bisnetos e tataranetos
que vieram e que virão na viração,
nas asas das  procelárias
que chegarem para visitação
e na concha acústica do molusco vieira.
Agora ela assiste  aos descendentes
de dentro da alma deles :
nossas almas rosáceas
tirante a uma variação do verde.

O morto, a morta, a murta,
com sua filotaxia decussada(decussada!),
não vai nem vem de lugar nenhum :
fica enterrada, emparedado(o morto) no corpo
ou cremada(a morta, a murta)
e dissipada pelas cinzas das horas
do poeta Manoel Bandeira
em primícias de lírica eremita.
( Mãe me ensinou a piscar
para por água na terra
que o vento sopra nos olhos
lendo as Liras de Marília de Dirceu
do poeta Antônio Gonzaga,
respirando uma Arcádia imaginária
na vida da mirta, murta-comum ("Myrtus communis"),
vegetal florido que se leva de Afrodite a Vênus,
através o caminho de través da Hélade
e vai até Jesus na manjedoura
com a casca da madeira raspada em mirra,
célebre incenso do Oriente
e coroa a noiva com sua grinalda.

A vida do ser humano
está escrita no Livro da Vida,
obra-prima da natureza com faunos e Flora,
mas deságua no Livro dos Mortos
onde há uma cruz ansata
e uma cruz romana.
Empós a cruz romana,
carga para uma vida inteira
de camelo devotado
a um império de feras,
bestas asquerosas,
descritas nos fabulários dos prudentes filósofos,
- vem ( e vinga!) a cruz cristã,
que cobre o sepulcro ou a cova rasa,
pois nem a natureza aceita a morte,
tampouco a Terra ou a terra
ou o ar que envolve a carcaça do cadáver
junto ao séquito de vermes,
em redor do morto, da morta
e do bicho em decomposição.
O defunto é uma escuridão interna,
caverna negra
cujo sol se finou.
Finado, dobre de finados
nos sinos a bimbalhar
em lúgubres responsos
para um "pobre "Alphonsus""!,
uma louca "Ismália"
que padeceu o setenário das dores de Nossa Senhora,
de Nossa Senhora, minha mãe!,  - em terra!,
onde tudo dói de fato
e não  em quimera celestial,
onde nada dói em dó maior
na dosimetria ministrada por Tchaikovisky,
sem dó alguma,
mormente quando a demência de Alzeihmer
chega ao ápice...
- pois quando Alzeihmer enloqueceu
e duplificou a visão da lua
no "Delirium tremens"
uma lua pisava o mar
e outra pesava o céu do morcego
e do mocho do campanário.

Mãe, como todos nós,
perdido o pouso do corpo
em que estava a exercer o ser,
dirigir o  drone, o submarino nuclear...,
vai despertar budicamente,
- bruscamente nos corpos dos outros entes,
os quais possuem seus pedaços
do Frankenstein fantástico,
que é a soma do soma
do que somos
em todos os  corpos humanos
dos nossos antepassados.
ascendentes, descendentes,
os quais se acham agachados a cuidar das estâncias
que são seus corpos  filiais,
na carne viva
e  às vezes em chagas
dos netos, bisnetos, tataranetos....
corpos nos quais dormia a mãe viva,
historiada pela Bela Adormecida no Bosque
e ainda com sono em Branca de Neve,
que acordou Neves, no Brasil
daquele pau-brasil
queimando sob o anil
recortado pelo anum
de pio ímpio,
penas negras apenas,
voo capenga:
vulto da noite
sem vago lume.
Vaga lume, vaga!,
que a noite não tem luzerna de vagalume.
A morte é noite sem fim
apenas num corpo finado
do qual se salta para a luz
- num salto mortal
do trampolim do trapezista
cuja flexibilidade é eco de vitalidade plena.
É mister não errar a acrobacia,
por  isso recomendo aulas
no Cirque du Soleil
para evitar uma segunda morte inútil
e um outro processo de desterro
enfadonho e longo à Kafka
descrito minuciosamente no Livro dos Mortos
com toda a burocracia ultramundana em detalhes.

 
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PERFUNCTÓRIO(PERFUNCTÓRIO!) - etimo etimologia



Mirando o retrato de minha mãe na puberdade
observo e sinto
que em seus olhos
eu já olhava extasiado para o mundo:
o mundo azul da Terra verde.
Eu já estava ali no universo
presente na metade do corpo dela,
pretérito no meu tempo de ser em carnação;
mas estava, naquele tempo,
antes de ser sequer rasto de feto,
pacto de óvulo e espermatozóide:
a meio-olho, ao meio-dia, meio-tijolo :
algo meã, a meio caminho do caminhante,
a um tiro de caminhão,
caminhando, em jornada,
jornaleiro à jorna pago.
( Mas mais bela  ao verdejar era a alga
marinha em seu seu verdor
composta em doce glicose,
a um passo de dança da compota
e dois passos da melodia do violinista verde de Chagall,
que colhia o verde do meu pai,
que quando bêbado esverdeava,
descendo o verde dos olhos à tez...
Porém,  perfunctório(perfunctório!) o mundo
em atos de governos virulentos e violentos
que invocam uma epifania de  Black Blocs
para espatifar vidraças
de instituições vestidas para o crime
permitido em lei capitalista,
comunista ou oriundas de repúblicas réprobas,
porém por demais democratas ou socialistas:
todas comprometidas com a corrupção
dos homens que as dirigem
e vêm a dirimir as querelas da justiça
consubstanciadas por ladrões e sicários
que empregam doutos
a serviço do direito e da ciência,
militares e milicianos a serviço mercenário
das forças armadas,
as quais defendem as debilidades políticas,
sociais e econômicas de um sistema
aberto para poucos sócios
e proibidos para todos os insolventes, inadimplentes.

Em posse da minha metade
naqueles olhos negros
de minha mãe
vi, via,  a metade da minha verdade,
meia realidade,
a meio-olho ou um olho ciclópico,
não com ou à meia luz,
mas com luz integral,
( ou vagalumesca na vaga do vagalume :vago lume)
se não fosse treva
de três trevas (tri-trevas)
ou trevo de quatro folhas
desverdeado pelas trevas tríplices
o que cavava o espaço do momento
antes do lusco-fusco
anunciar com anjo
não uma criança bem-nascida,
mas sim uma mulher na noite
pintada, sinalizada, por Joan Miró
em seu tratado pictocráfico
de príncipe-menino e princesa-noturna.
( A outra metade do meu olhar
estava nos olhos do meu pai
que via o outro lado do mundo
com outros hormônios,
outro ego e corpo meu apartado ao meio
a fio de espada do tempo
que ainda não era
na minha Era de Aquário,
signo de Virgem
nas constelações do zoodíaco
que deita de-noite
e dorme de-dia
e acorda na madrugada do acordo
com a corda ou seno
para trigonometria, alaúde, patíbulo
ou amarra de peças ou pessoas
em leva de prisioneiros
com séquito de soldados que marcham
com a cabeça no papel da lei
para cavaleiros lendários sem  cabeça
à frente da caleça,
coração ao meio,
partido.

Quando se juntaram,
unindo-se em mãe e pai,
as metades antes dispersas neles,
pelos medos e persas
caminhantes caminheiros
dos caminhos e descaminhos dos caminhões,
ocorreu a unidade daquelas metades
em uma verdade, uma realidade
e então se fez a luz a vagalume,
criou-se os céus e a terra,
as pedras e os petréis,
as ervas, heras, árvores e as lianas,
reptéis, anfíbios, mamíferos, peixes e aves,
tal qual  as vejo, sinto, penso
e ponho feito ser
junto ao fungo,
planta em que ponho o chapéu
e tiro tirocínio do céu
do petrel e outras procelárias,
bobos com suas almas-de-mestre
voejando em calmaria na procela
que fustiga com fúria
e faz balançar perigosamente
o maior dos transatlânticos.

Desse encontro
de amora que se enamora
nasceu minha cosmosvisão,
minha verdade e realidade
-  nasceu o que sou eu,
parte de mãe, parte de pai,
quando apartados,
e junção deles, empós o amor,
que acordou vencido pela barra da alva,
vencedor na flor de laranjeira, aromática,
no mundo que me não  leu,
nem sequer soletrou solerte
e me  não subverteu
na sua ginástica de exegetas e hermeneutas
das ilhas Aleutas,
nem no prazer inenarrável de ouvir alaúde
ou o terror pânico de ver o ataúde
que se dispõe a receber
o corpo do morto,
que é outro ataúde
de onde a alma e o espírito empreenderam fuga
na tocada e fuga singela do alaúde
com aletas na alma de Bach.

Mãe acaba de perder um corpo;
todavia continua com oito corpos de filhos
e outros tantos de netos, bisneto, tataranetos
que virão na viração :
mãe continua com chance de eternidade,
mirando o mundo dos meus olhos,
ouvindo com meus ouvidos,
lendo os poetas românticos
na biblioteca de "Alexandria"
que eu trouxe para dentro da memória
onde há uma pinacoteca,
museus de ciência...
- e a fusão de dois corações
em um coração vigoroso
imperturbável, impassível  nas borrascas,
inabalável nas intempéries,
em calmaria de procelárias
sobrevoando a procela a bramar,
a bufar bafejando o Zéfiro dos foles,
da gaita-de-foles com fôlego,
do pulmão, pneu, pneuma, atma
que inspira fora do mundo,
que é por  dentro o ser humano,
um microcosmos apartado,
e expira no mundo,
o macrocosmos a rodear o corpo humano,
em forma de música, melodia, ritmo
em dedos com dados de geômetra,
harmonia na arritmia, contraponto...: ponto!
- Pronto contraponto!

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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ALAÚDE, ALAIDE, PARA A ELEGIA DE MARIA DE LOURDES GRIBEL!




Corpo hirto em um esquife :
esta uma definição de morte
( ou da morte?!);
não um definir somente,
mas um definhar também
com rumo de demonstração :
ciência cênica do deus Thanatus
versus ciência cínica do homem do vulgo,
vulto transtornado em médico e monstro
na perde iluminada à vela.

Alaúde, Alaide, para a elegia
de Maria de Lourdes, minha mãe!

Um ataúde
não é uma alaúde.
O alaúde é um instrumento melódico
da família dos cordofones :
a música do alaúde
cabe na ala do mel,
por isso melodia,
de-dia e noite-e-dia.
O ataúde que, no árabe grafado,
também aponta para a substância da madeira,
matéria em celulose,
é feito para guardar morto
desatado do contorno melódico,
mesmo o mais módico
que chega  a beirar
o beiral do silêncio,
o qual pede um cantochão
distantes algumas jardas de mosteiros,
algumas abadias dadas em côvados covardes
e conventos que há de convir
são cenóbios,  casas cenobiais,monastérios,
lugares para vida contemplativa
para aqueles monges com face de terra
e aquelas monjas que amam a Deus
e por  Deus amados e amadas são,
no são e no sal da vida sã, santa.
( O alaúde tem abelhas
tecelãs terceiras da ordem das avelãs
e  do mel da lã melódica,
lânguidas, longas melíferas...
O cântico do alaúde
que eleva a alma da minha mãe
ao espírito que se esvazia
nos foles de Deus, do céu,
os  quais se expande em pulmões
com a música da sanfona ou acordeão
que acorda o acordo
na corda musical do pacto
que  senhor mandar sangrar
para poder assinar
com o sinal de sina do arco-íris
que conta ariris
pelo grito nos céus
e telhados gris
que rebaixam anis
ao nível dos homens vis).

Alaúde, Alaide, para prantear
o passamento de minha mãe,
 Maria de Lourdes!

Entrementes, se é a  vida da minha mãe
que me escapa pelas frinchas dos dedos
no tempo serpenteado pelas areias,
no período das águas,
nos instantes de luz,
que fazer e quem instar?!
A que deus?!
A que lua, a que loa?
Posto o morto
a que porto
irá atracar?
Em que porto soçobrará?!...
Posta a morta
a que porta
baterá?
A do batel?!...

O ataúde atou o corpo
de minha mãe
e o arrastou "redemoinhando"
para os subterrâneos
onde há Hades
e há-de haver catacumbas,
rio Estiges, barcas e Carontes.
O ataúde tocou-lhe a alma
que subiu aos céus
para encontrar um reino
todo dela,
todo de mãe,
pronto à espera
de sua soberana,
desde o rasto na areia
dos pés do primeiro tempo.

Mas se haverá céu e céus
nas acepções das palavras
para além dos azuis,
 o que não haverá,
 senão todo o impossível?
Eu não acredito em céu,
em mar ou em luar;
os deuses saem de mim
assim como as ervas da terra,
as víiboras das tocas;
Deus deixa a caverna
que tenho dentro de mim;
sai silente com  o querubim e o serafim
da sua comitiva divina,
com seu séquito angélico,
tal qual saem corujas,mochos e morcegos
de seus valhacoutos.
A única fé que tenho,
trago-a em mim;
a única razão em que creio
e com a qual mensuro e conto
está dentro de mim :
o resto é xarope de groselha
para inglês beber.

Minha mãe faleceu
mas metade do corpo dela
( corpo vem com água de alma e alga,
espírito de fogo)
foi deixado de legado vivo
em meu corpo,
pois a outra metade do meu organismo
pertence ao meu pai,
continuando, pois, o casamento deles
a viger dentro do meu corpo.
No que creio
é que minha mãe
que acaba de falecer
tem uma metade em mim
que a morte não pode levar
nem com seu exército bilionário de bactérias :
metade do corpo
( e no corpo vai alma em água
e espírito em fogo)
ela me deixou de legado vivo :
metade do corpo que fora dado a ela
na herança genética.
Na outra metade do meu corpo
vive meu pai,
ambos casados
em corpo, alma e espírito
dentro de mim!

Do exposto, depreende-se que a metade
que foi pasto das bactérias comensais
pertencia a ela
- que teve que morrer pela metade,
pois a morte não se completa
senão depois de largo ciclo de vida
quando a outra metade morre
em todos os filhos e netos,
bisnetos,  tataranetos...
- e vai gerações! quase sem fim
a cavaleiro do fim.
 Ficheiro:The musicians by Caravaggio.jpg
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MINHA MÃE PRANTEADA AO SOM DO ALAÚDE - enciclopedia



Corpo hirto em um esquife :
esta uma definição de morte
( ou da morte?!);
não um definir somente,
mas um definhar também
com rumo de demonstração :
ciência cênica do deus Thanatus
versus ciência cínica do homem do vulgo,
vulto transtornado em médico e monstro
na perde iluminada à vela.

Um ataúde
não é uma alaúde.
O alaúde é um instrumento melódico
da família dos cordofones :
a música do alaúde
cabe na ala do mel,
por isso melodia,
de-dia e noite-e-dia.
O ataúde que, no árabe grafado,
também aponta para a substância da madeira,
matéria em celulose,
é feito para guardar morto
desatado do contorno melódico,
mesmo o mais módico
que chega  a beirar
o beiral do silêncio,
o qual pede um cantochão
distantes algumas jardas de mosteiros,
algumas abadias dadas em côvados covardes
e conventos que há de convir
são cenóbios,  casas cenobiais,monastérios,
lugares para vida contemplativa
para aqueles monges com face de terra
e aquelas monjas que amam a Deus
e por  Deus amados e amadas são,
no são e no sal da vida sã, santa.
( O alaúde tem abelhas
tecelãs terceiras da ordem das avelãs
e  do mel da lã melódica,
lânguidas, longas melíferas...
O cântico do alaúde
que eleva a alma da minha mãe
ao espírito que se esvazia
nos foles de Deus, do céu,
os  quais se expande em pulmões
com a música da sanfona ou acordeão
que acorda o acordo
na corda musical do pacto
que  senhor mandar sangrar
para poder assinar
com o sinal de sina do arco-íris
que conta ariris
pelo grito nos céus
e telhados gris
que rebaixam anis
ao nível dos homens vis).

Entrementes, se é a  vida da minha mãe
que me escapa pelas frinchas dos dedos
no tempo serpenteado pelas areias,
no período das águas,
nos instantes de luz,
que fazer e quem instar?!
A que deus?!
A que lua, a que loa?
Posto o morto
a que porto
irá atracar?
Em que porto soçobrará?!...
Posta a morta
a que porta
baterá?
A do batel?!...

O ataúde atou o corpo
de minha mãe
e o arrastou "redemoinhando"
para os subterrâneos
onde há Hades
e há-de haver catacumbas,
rio Estiges, barcas e Carontes.
O ataúde tocou-lhe a alma
que subiu aos céus
para encontrar um reino
todo dela,
todo de mãe,
pronto à espera
de sua soberana,
desde o rasto na areia
dos pés do primeiro tempo.

Mas se haverá céu e céus
nas acepções das palavras
para além dos azuis,
 o que não haverá,
 senão todo o impossível?
Eu não acredito em céu,
em mar ou em luar;
os deuses saem de mim
assim como as ervas da terra,
as víiboras das tocas;
Deus deixa a caverna
que tenho dentro de mim;
sai silente com  o querubim e o serafim
da sua comitiva divina,
com seu séquito angélico,
tal qual saem corujas,mochos e morcegos
de seus valhacoutos(valhacoutos!).
A única fé que tenho,
trago-a em mim;
a única razão em que creio
e com a qual mensuro e conto
está dentro de mim :
o resto é xarope de groselha
para inglês beber.

Minha mãe faleceu
mas metade do corpo dela
( corpo vem com água de alma e alga,
espírito de fogo)
foi deixado de legado vivo
em meu corpo,
pois a outra metade do meu organismo
pertence ao meu pai,
continuando, pois, o casamento deles
a viger dentro do meu corpo.
No que creio
é que minha mãe
que acaba de falecer
tem uma metade em mim
que a morte não pode levar
nem com seu exército bilionário de bactérias :
metade do corpo
( e no corpo vai alma em água mineral
e espírito em fogo)
ela me deixou de legado vivo :
metade do corpo que fora dado a ela
na herança genética.
Na outra metade do meu corpo
vive meu pai,
ambos casados
em corpo, alma e espírito
dentro de mim!

Do exposto, depreende-se que a metade
que foi pasto das bactérias comensais
pertencia a ela
- que teve que morrer pela metade,
pois a morte não se completa
senão depois de largo ciclo de vida
quando a outra metade morre
em todos os filhos e netos,
bisnetos,  tataranetos...
- e vai gerações! quase sem fim
a cavaleiro do fim.

 Ficheiro:The musicians by Caravaggio.jpg
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

BERNE(BERNE!) - etimo etimologia glossario


Mãe amava jardinagem e... - amava minha avó,
que era a mãe dela,
bem como seus filhos
(seu marido?!) e a poesia
de Casimiro de Abreu, Junqueira Freire
e Álvares de Azevedo :
três ultra-românticos poetas
e um árcade conjurado
abaixo pescado.
 
   
Mãe recitava de Alvarenga Peixoto,
o conjurado árcade ,
o poema, que escrevera no cárcere,
na Ilha das Cobras,
o requintado intelectual lançado às traças
por sua participação na conjuração mineira.
O poema... - ei-lo em parte,
na parte que parte o coração:
"Bárbara bela
do norte estrela
que o meu destino
sabes guiar,
de ti ausente,
triste, somente
as horas passo
a suspirar.
    Isto é castigo
que Amor me dá".
 
 
Mãe cozinhava mui bem:
galinha à cabidela,
empadas deliciosas
( nunca comi similares
- ou só mordisquei similares!)
e outros tantos acepipes, quindins...
(" Isto é castigo
que Amor me dá".)


Mãe saía à rua
acompanhando, acompanhada,
em companhia de todos os filhos
ainda crianças, que então eram sete :
Osvaldo, o caçula,
viria pelo vento do cavalo com venta
na trombeta soprada por anjo rechonchudo. 
( Isto não foi castigo).

 
O povo que a via
na via expressa 
com a feliz prole
comparava-a à galinha com os pintainhos
ou a "escadinha", o time de futebol...
 
 
Íamos Ícaros (Ícaro!)
com destino à casa de sua mãe,
nossa senhora avó 
do tempo em que fomos gerados
quase nos gerânios que mãe plantara
por toda a parte vinculando com amor
o imaginário ao real, mesclados,
em clados...
Ecletismo, miscelânea, cladismo...


Mãe cantava canções maviosas
e seu canto santo - materno e terno
era melhor do que o melhor grupo musical do mundo:
- The Beatles :
 The Beatles de sublimes baladas!
( Besouros, escaravelhos, rola-bosta,
vira-bosta, coleópteros).
.


Mãe fazia tudo
- e era tudo que havia,
tudo quanto havia
( só de de ave era : tiê sangue, tiê preto,
cardeal( "Paroaria coronata..."):
era tudo isso sem erro)) :
dela não havia ausência
nem nas penas dos seus gansos
( onipresente é a mulher);
enquanto meu pai 
apenas aparecia de coadjuvante
e de preferência ébrio e furioso
tal qual um Ludovico Ariosto
 que recitava o poema
"Orlando Furioso"
cuspindo marimbondos.
(A atuação do pai é sempre a de um bufão
- embriagado!
Pobre de mim
que fluí assim
pela água do rio
que untava meus pés
no banho de língua lambida
do cachorro carinhoso:
O arroio  rumorejante é um cão
com todo carinho de mãe
em dedicatória loquaz).
  Por certo que "isto é castigo
que Amor me dá".


Ora, se insto em frisar
que mãe fazia e acontecia,
em tempos  de paraíso,
à luz edênica,
ou no Jardim das Hespérides
ou na Casa de Filosofia de Epicuro,
denominada o Jardim por aquele sábio,
não é porque ela já esteja morta;
mãe ( Mãe!!!... grito e a noite me devolve 
o silêncio sem mãe,
a calada da noite 
com a esposa surda 
em seus afazeres domésticos, coitada!:
ela tem a árdua tarefa 
de ser mãe para outros filhos,
outra rainha, outra deusa
para pequeninos chorões
ou enormes preguiçosos
- os meus filhos, mais dela,
que tudo é mais da mulher
e muito menos do homem,
o fanfarrão bêbado).
Mãe continua viva,
esbanjando saúde,
porém ferida pela idade provecta,
na qual muitos sofrem do mal de Alzheimer,
pena sob a máscara teatral 
que caracteriza a personagem de Alzheimer
em peça dramática que um médico escreveu
para os demais colegas representarem 
nas faces do pacientes
meros atores no exercício da doença,
dentre outros males que teimam em abundar,
a desdenhar a ciência
em sua estúpida e estapafúrdia presunção
( O sábio Alzheimer
que escreveu a tragédia grega
para ópera médica,
leu-a na face do macróbio
que, se sobrevivermos ao boom da vida,
poderemos poderosos, qual o truão,
 ter que representar
a tragédia do estro do douto Alzheimer).
( "isto é castigo..."
que Deus não mo dê!).
 

Mãe, canto sua alegria antiga assim,
que era minha felicidade de antanho,
não num tom elegíaco ou ditirâmbico,
mas com ordem de ode
eivada de nostalgia,
pois fica claro que nós, - todos!,
os maus filhos, que somos, - todos tolos!,
péssimos e ingratos seres humanos,
tratamos o outro ser humano,
no caso até a mãe,
não com respeito, carinho e amor,
nem com qualquer laivo de caridade
que ultrapasse o que é  mero verbo 
em lábios mendazes da barregã,
mas com desdém,
porquanto mesmo em se tratando de nossa mãe,
pessoa de proa de nossa vida,
que todo o amor semeou e doou para nós,
que nos embalou e consolou com carinho,
bálsamo que nunca mais usufruímos;
não obstante isso e tudo o mais
que não ouso narrar
por vergonha de constatar que tanto amor
teve o retorno de tanta indiferença,
pois  passamos  tratar nossa mãe,
que é a nossa vida,
como se morta fosse:
- tratamo-la como mula e trator que somos,
Massey  Ferguson,
- tratamo-la como se ela fosse
um jazigo vivo,
um túmulo aberto no peito
- da dor maior,
que é um dó maior...
que rasga e fere gravemente
- até nossa maldade infinita!
  Isso grito de mim
e sou meu crítico severo.
Mas a vida é assim 
e assim seremos todos tratados
pelo tratorista do dia
que sai para rasgar o ventre da terra:
roubar a terra para outrem
que lhe ordena a roubar
na doutrina da lei
dos escribas hipócritas
que o somos escrevendo.
Ó copioso amanuense!:
"Isto é castigo
que Amor de dá".
 

Mãe, não é verdade, ó mãe,
que ainda me escuta daí
mesmo com a baixa umidade no ar
que mal me faz respirar?! 
Mãe, que  faz o oboé expirar
na melodia do luar
e suspirar ao se lembrar
do poeta Inácio Quinaud,
do qual, ela, minha mãe,
narrou-me o drama,
a tragédia que terminou em suicídio! 
( O poeta vive sob a pressão do front,
da casamata, da taberna, da caserna, da Cúria...)
e do que suspira na lira da brisa
o árcade inconfidente:
"Isto é castigo
que Amor me dá".


Mãe,
que deixa pendoar o perdão
 para este filho impenitente, a este,
ou quem sabe no zênite, nadir... a oeste...
- este filho  sem sorte e sortilégio no norte
que precisa de muita penitência filial
à maneira do profeta Oséias.
Todavia, mãe, 
- a minha mãe!, 
não me cobra que eu espalhe 
um punhado de cinza na cabeça,
cilício e vestes de saco use
e abuse  como Deus quiser
- se quiser pela "Opus Dei", pois
"Isto é castigo 
que Amor me dá".
 
 
Mãe pode ter morrido para a poesia
do sublevado Alvarenga Peixoto
como morreu para muita coisa;
porém nós, mesmo em criança,
morremos todas as noites
e acordamos com a aurora
para que venha nos acordar
no fuso do dilúculo,
na lua embrulhada em teia de aranha,
toda branca, pálida,
pois todos somos roubados e furtados
de células, acervos de memória,
dentre a infinidade da riqueza
que foi e é nosso tesouro na vida,
sempre surripiado, bifado tesouro,
sem que nos socorra
o Código Penal Brasileiro
ou as leis internacionais
que berram e ladram,
mas somente põem o ricto do sarcasmo
em lábios entreabertos num sorriso irônico
do ladrão, que não é cão,
nem ladra feito um canino
- e também a ferida da berne (berne)
no boi,  vaca,  bezerro,
os  quais ruminam e berram,
erram pelo pasto vasto,
carreando a berne a mosca varejeira,
a fim de que o abençoado pão de cada dia
chegue à mesa do médico  veterinário
que  também merece sobreviver
e se alimentar de glúten,
caso não seja celíaco.
( "Isto é castigo
que Amor me dá").

Outrossim, além de não permitirmos
 paz aos vivos,
nem à nossa amada mãe,
em seus dias turvos
nos quais vê quase que tão-somente
o Ancião dos Dias
debruado nas madrugadas 
ouvidas em madrigais
e cheiradas em madressilvas,
- nós os irrequietos 
não deixamos nem os mortos ao limbo:
estão sempre nas nossas digressões,
visitam-nos em sonhos 
e os visitamos em cerimônias anuais,
se não dialogamos com eles 
escritos sob os signos,
afogados sob montanhas de signos
em livros, cartas, obituários, inventários, epitáfios
que são "proclamas" do mal-do-século,
em "Confissões" de Alfred de Musset 
e na vida extravagante de Lord  Byron,
um dos maiores poetas de Europa,
que jaz na Igreja de Santa Maria Madalena
em algum lugar da Inglaterra

de João-sem-Terra
e Ricardo Coração de Leão.

Em algum lugar
da terra de mãe
( terra em mim)
há uma rua simples e torta
com a porta aberta à lua morta

nos olhos do poeta Inácio Quinaud
morto
- como seremos sob sereno
 um dia, noite ou madrugada
 quando já não estaremos
íntegros sob o culto ao luar
na Rua Inácio Quinaud
que escura cura que escuta
o canto da cachoeira
 entrar nos seus casarios
- ouvidos do rio
com martelo e bigorna
( "isto é castigo 
que Amor me dá").

( PARA O LIBRETO "RECOLHA DE POEMAS E BALADAS PARA A RUA INÁCIO QUINAUD,
ESCRITO PARA O BALÉ E  A ÓPÉRA :"MÃE NO PAÍS DO "NONSENSE" COM SUAS  FILHAS ALICE MULTIFACETADA").

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